A primeira parte do capítulo continua a terceira divisão principal dentro dos capítulos 9–11, onde Paulo estabelece que Israel é culpado porque deixou de buscar a Deus pela fé, 9.30–10.3. Paulo novamente expressa grande desejo pela salvação dos seu compatriotas. Ele nota seu zelo, mas também observa que é mal-direcionado, pois procuravam estabelecer sua própria justiça. “Quando Jesus veio, os líderes religiosos de Israel tinham estabelecido sua própria justiça, isto é, seu próprio sistema de auto-justificação” (Dickson 2016, 69). Em 9.3 “irmãos” se referia aos judeus; aqui em 10.1, o vocativo se refere aos seus irmãos em Cristo.

Depois, ele trata do ponto central dessa unidade: Deus tornou possível a salvação, tanto a judeu como a gentio, para todos os que creem e o chamam, 10.4-13. No final do capítulo, 10.14-21, ele retorna à questão da culpa de Israel, por falta da fé. Israel ouviu e entendeu, mas escolheu ser desobediente e rebelde, v. 21. Para a estrutura dessa unidade, ver resumo no Capítulo 9.

Comentário de 10.9-10

Paulo cita três frases de Deuteronômio 30.12-14 a respeito da lei e as aplica ao evangelho.

“Não precisamos subir aos céus para buscar Cristo (e assim ficar corretos com Deus), porque Deus já o fez descer à terra como homem. Nem precisamos descer ao abismo para encontrar Cristo, porque Deus já o ressuscitou dos mortos. Para encontrar Cristo, precisamos simplesmente crer na palavra que está perto” (Harrison 2008, 1911).

Estava perto de todos, judeus e gentios, a palavra da fé. Paulo descreve qual é essa palavra, em forma quiástica:

A. Se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e
B. Crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos,
C. Será salvo.
B’. Pois com o coração se crê para justiça, e
A’. Com a boca se confessa
C’. para salvação.

Paulo cita abreviadamente o conteúdo da confissão com a boca: “Jesus é Senhor”. Esta confissão representa mais do que palavras, pois Jesus condenará no último dia os que o chamam de Senhor sem fazer a vontade do Pai, Mateus 7.21-23. Representa sim o compromisso de obedecer-lhe em todas as coisas. (Compare Êxodo 24.7; Daniel 9.10, 14; 1 Pedro 3.6.) As palavras faladas pela boca têm de ser acompanhadas pela fé no coração. “(…) Não se pode afirmar que Jesus seja seu Senhor sem se submeter à palavra de Jesus, João 14.15; 15.14; 1 João 5.3” (Dickson 2016, 71).

Estes versos, como tantos outros, mostram a falsidade da doutrina protestante da salvação, ou justificação, pela fé somente, pois a confissão é algo que se faz perante os homens.

Como, no capítulo 6, Paulo associa a imersão à salvação, ele agora, junto com a fé, liga a confissão do nome de Cristo à salvação também. Era prática confessar o nome de Cristo no momento da imersão. Assim, os vários elementos ou passos para a salvação compõem um pacote só.

Notas

Os passos para a salvação se aplicam a todos, pois “o mesmo Senhor é Senhor de todos e abençoa ricamente todos os que o invocam” v. 12. Não há caminhos diferentes para pessoas diferentes. Como o Senhor é um só, o caminho até ele também é um só.

“‘Invocar o nome do Senhor’ não é uma referência à oração, mas sim á obediência, incluindo a imersão no nome de Cristo. Sem dúvida, Paulo lembrava frequentemente sua própria imersão, quando Ananias o encorajou: ‘E agora, que está esperando? Levante-se, seja batizado e lave os seus pecados, invocando o nome dele’ Atos 22.16. A obediência na imersão era uma parte do meio pelo qual Paulo invocou o nome do Senhor” (Taylor 2012, 47).