RESUMO. Nos capítulos 9–11 Paulo trata do lugar de Israel dentro do plano de Deus. Aos olhos humanos, acaba sendo problema a rejeição de Cristo por parte dos judeus, pois eles tinham todas as vantagens como os escolhidos de Deus, 9.1-5. Poucos deles, porém, recebiam a salvação. Paulo mostra que ao longo da história somente um remanescente, ou pequena porção, do povo seria salvo, 9.6-29. (Deus é livre de mostrar misericórdia a quem quer e continua sendo sempre justo, 9.14-23.) Somente poucos seriam salvos entre os judeus, porque o povo não confiava nele, mas tentava usar a lei como alavanca para a justiça própria, 9.30-33.

Os capítulos 9–11 constituem uma unidade literária independente e é possível ver uma estrutura dentro dela em forma de quiasmo (adaptado de Hart 2015):

A. 9.1-5. Introdução: tristeza sobre a perdição dos judeus.
B. 9.6-29. É a culpa de Deus? Não! Ele não falhou.
C. 9.30–10.3. Culpa de Israel? Sim! Pois não buscou a justiça pela fé.
X. 10.4-13. Deus tornou possível a salvação para todos.
C’. 10.14-21. Culpa de Israel? Sim! Israel deixou de crer.
B’. 11.1-32. Culpa de Deus? Não! Ele não rejeitou Israel.
A’. 11.33-36. Final: louvor pela sabedoria e conhecimento de Deus.

Comentário de 9.6-7

Não pensemos. A forma como pensamos a respeito de Deus é importante, pois ele está no centro da nossa fé. Muitas doutrinas erradas começam a partir de conclusões erradas sobre o Senhor. Paulo vê a possibilidade de os leitores pensarem de forma equivocada sobre Deus pela falta de fé da parte dos judeus.

Que a palavra de Deus falhou. “Palavra” aqui pode ser entendida como a sua promessa: “Isto não quer dizer que Deus não cumpriu as promessas que lhes fez” (VFL). A fidelidade de Deus então estaria em jogo, se estivesse correta a conclusão de que todo o povo de Israel devia aceitar Jesus. Por isso, Paulo começa o argumento a partir das Escrituras que nunca foi o plano de Deus salvar todos os judeus, mas apenas os que vivam pela fé.

Pois nem todos os descendentes de Israel são Israel. Havia o povo físico de Israel conforme sua descendência de Abraão. Mas desde o início ficou evidente que nem todos compartilhavam do mesmo compromisso, nem todos queriam se submeter à liderança do Senhor.

Nem por serem descendentes de Abraão passaram todos a ser filhos de Abraão. Os judeus tinham orgulho de contar Abraão como seu pai (ver João 8). Mas isso valia pouco, na verdade. O próprio Jesus declarou que são filhos de Abraão os que fazem as obras que Abraão fazia. Então, dentro de Israel havia outro Israel que podia incluir judeus e gentios que vivam pela fé.

Ao contrário: “Por meio de Isaque a sua descendência será considerada”. Abraão tinha outros descendentes, mas estes não eram escolhidos como o povo de Deus. Descendência física, portanto, não implicava na escolha de Deus. Os judeus não podiam citar Abraão como pai como prova da sua identidade como povo do Senhor. Portanto, Deus não podia ser culpado pelas escolhas erradas do povo.