Por meio de uma mídia social veio essa pergunta:

Como você entende o texto de I Cor 6.2, onde Paulo escreveu que os santos julgarão o mundo e os anjos? Quando e qual é natureza desse julgamento? —HLC

O texto e o contexto de 1 Coríntios 6.1-6 dizem (NVI):

Se algum de vocês tem queixa contra outro irmão, como ousa apresentar a causa para ser julgada pelos ímpios, em vez de levá-la aos santos? Vocês não sabem que os santos hão de julgar o mundo? Se vocês hão de julgar o mundo, acaso não são capazes de julgar as causas de menor importância? Vocês não sabem que haveremos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas desta vida! Portanto, se vocês têm questões relativas às coisas desta vida, designem para juízes os que são da igreja, mesmo que sejam os menos importantes. Digo isso para envergonhá-los. Acaso não há entre vocês alguém suficientemente sábio para julgar uma causa entre irmãos? Mas, ao invés disso, um irmão vai ao tribunal contra outro irmão, e isso diante de descrentes!

Aos santos (=cristãos) é dada a responsabilidade de proclamar no mundo a Boa Nova de Cristo. Esta proclamação declara a salvação de Deus e as pessoas ou rejeitarão ou crerão na mensagem.

De certa forma, esta proclamação serve, portanto, de juízo. A base de juízo é a obediência. A obediência leva à salvação. E a desobediência significa a condenação.

Os anjos também são julgados pelo mesmo princípio da obediência e da desobediência. (Ver 2Pd 2.4, 9; Jd 6.)

Esta proclamação julgadora faz parte da participação no reino de Cristo (ver Mt 16.19; 18.18). Estes versos indicam que as chaves do reino que abrem e fecham, exercidas pelos discípulos na evangelização, já foram determinadas no céu. “A participação no reino de Cristo significa participação na sua tarefa escatológica de julgar o mundo (1Co 16.2, em cumprimento de Dan 7.22)” (Ferguson 1996: 34-35).

Keener afirma que, no império romano do primeiro século, “os membros das classes sociais inferiores não podia processar nos tribunais membros da classe superior. Mas, para Paulo, mesmo os mais humildes dos crentes se acham aparelhados para o exercício do juízo” (2004: 481).

Ao afirmar que os discípulos julgariam o mundo e os anjos, o apóstolo declara a capacidade deles de resolver as questões e diferenças que surgiriam entre os membros do corpo de Cristo. “Já que os cristãos julgarão os anjos, eles devem ser capazes de julgar as coisas desta vida presente” (Sheerer 2001: 706). Os anjos participam, como servos divinos, na soberania sobre o mundo e assim representam parte do funcionamento do mundo. (Cp. Ap 2.1, etc.: “Ao anjo da igreja em Éfeso”).

Desta forma, tanto o ato de pregar como o conteúdo da pregação é de juízo. Foi dito a respeito de Noé que por meio da fé “condenou o mundo” Hb 11.7, talvez tanto pelo temor que ele mostrou na sua obediência (Olbricht 1997: 112), como pelo seu desempenho como “pregador da justiça” 2Pd 2.5.

Quando?

Quando ocorrerá este julgamento do mundo e dos anjos? O ponto inicial ocorre quando o evangelho é pregado. O ponto final, quando todos aparecem perante a Deus. Pois a reação das pessoas no primeiro determinará a reação divina no última. A predestinação quer dizer isso: Deus determinou antemão qual seria o destino eterno dos que obedecem e dos que desobedecem ao evangelho.

“(…) diante dele os destinos se estabelecem desde já para o mundo por vir: uns escutam sua palavra e recebem a vida eterna; outros se recusam a crer e desde já são julgados, sua incredulidade sendo o sinal de disposições, que um dia os levarão irremediavelmente à condenação” (Burnier 1972: 215).

O dia do juízo, aquele dia futuro indefinido, se aproxima e a indefinição dele serve de motivo para nossa ação no presente, seja para com os irmãos, seja para com os de fora. Desejamos que todos acumulem “um tesouro para si mesmos, um firme fundamento para a era que há de vir, e assim alcançarão a verdadeira vida” 1Tm 6.19 NVI.

E daí?

Qual a aplicação deste texto para nós hoje? A mesma verdade se aplica: participaremos deste juízo do mundo e dos anjos. Desfrutamos da sabedoria de Deus. Graças à recepção da mensagem de Cristo, temos a sua mente, “nós pensamos como Cristo pensa” 1Co 2.16 NTLH. Os menos importantes, os mais humildes, no reino de Deus são mais sábios do que as pessoas do mundo. Assim, devemos valorizar a revelação divina e a sabedoria que Deus nos dá. Três vezes dentro do contexto da passagem Paulo pergunta: Vocês não sabem (…)?” É preciso saber o que possuímos e viver de acordo com isto.

Segundo, devemos evitar levar as nossas questões perante descrentes. “As disputas entre os santos devem ser resolvidas entre os santos, e totalmente dentro dos limites da igreja” (Morgan 1959: 472). Devemos trabalhar para que prevaleça a paz, até perdendo a nossa causa se for necessário. O cristão busca sempre promover a paz. “Por isso, esforcemo-nos em promover tudo quanto conduz à paz e à edificação mútua” Rm 14.19 NVI.

Terceiro, o juízo faz parte da mensagem de Cristo. Paulo mesmo proclamou ao governador Félix “acerca da justiça, do domínio próprio e do juízo vindouro” At 24.25. Jesus disse que, ao chegar o Espírito Santo, “convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” Jo 16.8. Chamamos às pessoas ao arrependimento à luz do juízo final, para “escapar ao castigo de Deus, que se aproxima” (Lc 3.7 BPT). Não pregamos aos perdidos que “vamos julgar vocês”, mas sim que todos irão responder pelos atos cometidos nesta vida, Rm 14.12, iremos prestar contas pelas nossas escolhas, Hb 4.13. Esta verdade deve nos causar a todos grande temor que nos motiva a buscar a vontade do Senhor.

Quarto, Paulo, como sempre, faz uma distinção clara entre os santos e os de fora. “A linguagem de Paulo nestes versos pode ser compreendida somente quando se entende sua distinção entre cristãos e não cristãos” (McKinney 1987: 245). Hoje, perdeu-se esta linha divisória entre o povo de Deus e o mundo. Precisamos entender bem o que é necessário para alguém de fora entrar em Cristo, isto é, a fé e a imersão na água para remissão dos pecados, Gl 3.26-29.

Citações

BURNIER, J. 1972 “Julgamento: NT”, em Vocabulário bíblico, J.J. Von Allmen, ed, págs. 214-218. 2a. ed. São Paulo: ASTE.

FERGUSON, Everett F. 1996 The church of Christ: a biblical ecclesiology for today. Grand Rapids MI EUA: Eerdmans.

KEENER, Craig S. 2004 Comentário bíblico Atos: NT. Belo Horizonte: Editora Atos.

MCKINNEY, John T. 1987 “1 and 2 Corinthians”, em NT Survey, Don Shackelford, ed., págs. 229-297. Search AR EUA: Resource Publications.

MORGAN, G. Campbell. 1959 Exposition of the whole Bible: chapter by chapter in one volume. Grand Rapids MI EUA: Revell.

OLBRICHT, Owen. 1997 Beyond death’s door. Delight AR EUA: Gospel Light Pub. Co.

SHEERER, Jim. 2001 NT commentary. Chickasha OK EUA: Yeomen.