Chegamos na cidade dos meus pais na terça-feira. Fomos direto ao hospital, onde meu pai trabalhara por 34 anos. Onde eu nasci e me submeti à cirurgia aos 17 anos. Onde meu avô deu o último suspiro, faltando um mês para chegar aos 100 anos de idade.

Arrumaram, dentro do hospital mesmo, os assim chamados cuidados paliativos (hospice care) para meu pai. Não há mais nada que se possa fazer por ele, além de deixá-lo mais confortável. Com 83 anos, quase 84, e sofrendo de Alzheimer’s faz alguns anos, este homem que vivia com todo o vigor, homem ativo que trabalhava com as mãos, gostava de caçar o veado de rabo branco e peru selvagem com arco e flecha e dedicava-se à obra de Cristo, agora mal tem forças para tossir e nem tem para se virar na cama.

Ontem, ele ficou mais alerta, falava mais, embora tivéssemos dificuldade de entendê-lo. Seria aquela despertada final antes da passagem para o Além?

Já na terça à noite, passei a noite como ele, para deixar minha mãe e minha irmã descansarem. Ontem, mais horas entre as quatro paredes que pareciam encolher com o vazamento da vida. Horas em que só nós dois ocupamos o apartamento, ele mal ciente da minha presença, eu observando o levantar e o descer do peito, a respiração rala, as mãos ou procurando algo no ar ou segurando o cobertor, como se agarrando ainda à vida terrestre, os lábios secos tentando formar palavras que ninguém ouviria.

Na luz fraca do apartamento no terceiro andar, eu olhava por sobre a cama desarrumada do meu pai, pelas janelas que davam vista a um átrio formado pelas alas do prédio, para a chuva que não parava, para o topo duma árvore balançando devagar no ventinho, dando, quem sabe, o adeus da natureza, para uma lustre de estilo moderno cuja modernidade já não brilhava tanto.

Anos atrás, meu pai me diria que tipo de árvore crescia fora da janela. Agora, é uma árvore sem nome. Sinaleiro de mudanças por vir, sem a presença familiar do pai.

Ao ler a Palavra de Deus para meu pai, usando sua própria Bíblia, com aquela versão antiga que ele aprendia como criança, ele parecia reagir à leitura. Será que o Verbo estava penetrando aquela mente já bastante apagada e cansada?

E o que orar? Alguns, em momento assim, já pedem a Deus para levar o ente querido e deixá-lo ser livre do sofrimento. Compreensível, sem dúvida, até aos ouvidos divinos. Mas quem sou eu para saber o que é melhor? Deixá-lo partir, ou fazê-lo demorar ainda? Seríamos nós impacientes com a demora dele, ao pedir de Deus para levá-lo? Ou será que o Pai celeste ainda tem para nós umas lições a aprender pela presença dele?

A única coisa que consigo falar na oração no momento é entregar nas mãos de Deus tanto meu pai como toda a nossa família. Pedir forças para esta hora. Aproveitar o dia de hoje que veio parar os trabalhos e os planos e as atividades e focar uma pessoa e suas necessidades. Sentir a intensidade da vida e da morte e enxergar a tenuidade da linha entre os dois, tanto para os fortes bem como para os fracos.

A oração, nesta hora, se torna tanto uma quietude como um pedido ou questionamento. Não ficamos apavorados, mas admirados diante da imensidão do portal a que acompanhamos nosso ente querido. Lembramos que logo, em momento desconhecido, chegará a nossa vez. A mortalidade do meu pai é também a minha.

Mas este momento não é meu, é dele. Estamos aqui — esposa, filhos, netos, bisneto, amigos, irmãos na fé — para ele. Falamos em tons baixos, de respeito pelo passo que logo tomará. Fazemos escala para não deixá-lo só no apartamento, em honra dele. Na casa dos meus pais, um levanta da cama, que é logo ocupada por outro, no vai-e-vem entre casa e hospital, peregrinação santa de serviço e amor por ele.

Mesmo com a sua mente embaçada, em breve meu pai passará pelo portal e experimentará uma clareza imediata de percepção, perante a glória divina do Senhor Jesus Cristo. E nós, com as mentes em pleno vigor, continuaremos vendo esta passagem de forma fumarenta.

Talvez, desta maneira, a nossa oração principal, além de servir e amar o nosso pai até o fim, seja para aprendermos com ele a buscar esta visão nítida e eterna de Cristo.