de Randal Matheny

A palavra “doutrina” tem um significado simples, o de “ensino” ou “ensinamento”. No português o termo adquiriu uma conotativa pesada e negativa que não está presente na língua grega do Novo Testamento.

Os dois termos gregos principais para doutrina são tirados da mesma família: didaskalia é tirado de “professor, mestre” (didaskolos) e didache advém do verbo “ensinar” (didasko). O primeiro descreve mais a atividade do professor, enquanto o segundo, o conteúdo, mas essa distinção nem sempre é observada na prática. Didache ocorre 30 vezes no Novo Testamento (13 vezes nos evangelhos e em Atos); didaskalia ocorre 21 vezes (15 vezes nas cartas pastorais).

O fato mais marcante sobre “doutrina” é que, quando se refere ao ensinamento de Cristo ou de Deus, se encontra sempre no singular (por exemplo, Tito 2.10). Mas não é raro encontrar a palavra no plural quando se tem em vista os ensinamentos “que não passam de regras ensinadas por homens” (Mateus 15.9 NVI; ver também Colossenses 2.22; 1 Timóteo 4.1; Hebreus 13.9). As doutrinas humanas são variadas e multiplicadas, enquanto o ensinamento que vem de Deus é único.

Hoje, cada denominação tem sua própria “doutrina”. Esta situação é estranha ao Novo Testamento, pois a igreja de Deus tem um único ensinamento. Paulo falou da sua vida em Cristo “de acordo com o que eu ensino por toda parte, em todas as igrejas” (1 Coríntios 4.17).

O doutrinamento na igreja é função essencial ao seu crescimento espiritual, sua obediência ao primeiro Mestre e seu cumprimento da missão de Deus no mundo.

Embora exista o dom do ensino (Romanos 12.6-7) e haja mestres na igreja (1 Coríntios 12.28; Efésios 4.11; Tiago 3.1), todos devem ter a capacidade de ensinar (Hebreus 5.12). A atividade do ensino é tão comum na igreja que até os cânticos servem para ensinar (Colossenses 3.16).

O ensino na igreja é diferente do que o das escolas de hoje. O ensino cristão visa não apenas informar o aluno, mas convidar o ouvinte a decidir por seguir a Cristo e a viver por ele e como ele. Trata não meramente da razão, mas da vontade, da decisão, da ação. Paulo afirma que parte da proclamação do evangelho foi o ensino (Colossenses 1.28). Assim, Pedro direciona seus ouvintes para o arrependimento e a imersão (Atos 2.38) e ainda insiste: “Salvem-se desta geração corrompida” (v. 40).

Alguns hoje querem separar o ensino da pregação aos de fora. Dizem ainda que o apelo à fé não faz parte do evangelho. Geralmente, tais pessoas têm uma agenda de querer diminuir o evangelho a um mínimo para ter comunhão com denominacionais e negar a obrigatoriedade de viver conforme o mandamento de Deus.

Jesus ensinou a doutrina do seu Pai e isso nos basta.